quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A tecelã de lidos



          Acomodou-se na cama entre as cobertas, tentava voltar àquela posição. Afofou o travesseiro. Eu só queria que tudo fosse como antes. Puxou a ponta do cobertor. Era seu lema. Virou de lado. Entrega o passado ao passado, Ana!

Há pouco, antes de o pesadelo a acordar, sentia um conforto tão grande na cama, uma quentura de corpo, um esvaziar de mente. Só gostava de conseguir voltar àquela posição e livrar-me dos pesadelos. Deu mais uma volta sobre si mesma. É pedir demais? A cama esfriara. Vá lá. Deixou a rabugice ir-se e acendeu o abajur. Pegou um dos livros que comprara em um alfarrabista na tarde anterior decidida a ler até amanhecer ou voltar-lhe o sono.  “Le Fil de Ariane”, uma brochura de 1945, páginas amareladas, engrossadas pelo tempo. O cheiro a entorpecia. Capa de cartolina desbotada em azul.  Abriu uma página ao acaso.

Sarrilhando o fio e a vida as mulheres aquecem-se com aquela nesga de sol coada pelo casario a bordejar ruas estreitas de múltiplas cumplicidades. Dobam linho e lã e tecem tempos de espera e histórias de vida habitadas por amores, crenças, costumes, medos e esperanças.

Ficou com o livro entre as mãos. O olhar perdido em um tempo ido. À cabeceira, o copo d’água sobre outro livro. Queria um poema. Não podia começar a pensar em fios agora. Tomou um gole e pegou o grosso volume, a capa marcada de muitos copos. Buscou o que queria. A página sabida de tanto lido. Respirou forte à espera do que viria.

Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.
O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando.
A chuva caindo.
A casa deserta.

Parou o tempo. Escrever. Queria tanto poder escrever poesia. Lembrou-se do pesadelo. A sensação da angústia sentida voltou-lhe. Folheou algumas páginas até parar diante do muitas vezes lido.

Como posso ter tido tanto sol alguma vez dentro de mim?
Esta saudade dum outro que sorria
sem raiva e ódio
não será mais do que delírio imaginado?
Será a mim que lembro?

Ergueu os olhos da página. O dia começava a clarear. Mais chuva. A imagem do pesadelo voltou-lhe. Levantar-se-ia. Recuso-me a pensar naquilo. Basta aos pesadelos viverem enquanto durmo. Iria vestir-se e caminhar à beira-rio. Sim, iria. Nada como uma actividade física para espantar os fantasmas. Um precoce esboço de sorriso formou-se em seu rosto. Onde foi que li algo assim ontem? Remexeu a pilha de livros acumulada na cadeira ao lado da cama, Quando Lisboa Tremeu, um romance sobre o grande terremoto de 1755. Aqui. Sentada na cama, abriu onde o marcador estava.

Enquanto se corre depressa e se foge do perigo, há uma emoção permanente que atravessa o nosso corpo, uma intensidade interior que nos excita. Mas há também uma tremenda sensação de liberdade, uma alegria esfuziante, que nos contagia e nos absorve os pensamentos.

Os pensamentos. São eles. Já não consigo nem mais dormir. Levantou-se. Iria correr à beira-rio. Sabia onde estava o perigo. Lembrou-se de lido outro. O mundo renova-se também pela tristeza. Acolheria Tejo-rio em seus meandros.

***

Nesta crónica: Mario Dionísio, escritor neo-realista português; Maria Antonieta  Garcia, pesquisadora da Universidade da Beira Interior, Covilhã, Portugal; Domingos Amaral, jornalista e escritor lisboeta; e Maria Gabriela Lhansol, grandes nome da literatura contemporânea portuguesa.

A ser impresso e publicado em 15 de fevereiro de 2014.


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