quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Malas a arrumar


Aberta a meio da sala, a mala é máquina do tempo. Nela entram vividos passados. Dela sairão futuros futuros. O presente é máquina-mala no meio da sala. Aberta. Incompleta. Impronta. Quanta coisa caberia na mala? Quanto pesará a mala? Quanto de mala suporta o corpo?

Na mala, a pasta entreaberta é aquivo-memória: bilhetes de avião, ingressos de museus, passes de comboio. Intensidades vividas em arquivo-morto. Quanto de papel necessita a memória? Quanto de memória retém o papel? Como se arquiva um vivido?

No canto da mala, sob saias e lenços, a caixa. Pequeno baú de impressões. Recolha de sensíveis. Armazém de sensações para a pele d'alma: uma concha, sementes distintas, pequenas folhas amareladas de outono, pedras roladas, pisadas pelo caminho, um musgo quase seco, uma flor a se fazer marrom. Impressões que não se querem perder. Percepções de um ido, de um estado. Agora tornado caixa na mala junto ao arquivo. 

Como transportar um vivido? E aquilo tudo que não cabe na mala? Onde se leva o fora-da-mala?  A bagagem em excesso? O não transportável? Quanto carrega um corpo fora da mala?

Em um compartimento da mala, fechado por zíper, está o caderno. Capa azul em tecido bordado, duzentas páginas em branco. Apenas uma única linha escrita. Um local, uma data e o início de uma frase: "Portugal, primeiro de setembro, inauguro essa escrita estrangeira, quereria escrever em bruto, onde as páginas caíssem, desurdidas, num silêncio  posterior...". 

Adágio de um não-escrito recolhido à mala de um ido. Zíper fechado, folhas em branco manchadas com a tinta de uma única marca: "quereria escrever...".

"Quereria" - um possível passado condicionado a um futuro. Tempo verbal guardado na mala. Futuro de um pretérito. Confissão de um quase. Quase escrita desurdida em bruto. Folhas que caem no chão da mala.

Aberta a meio da sala, a mala é máquina de tempos. Invenção de vividos, arquivo de memórias, produção de futuros. Fechado no dentro da mala, o caderno em branco. A página manchada do escrito. Quereria.


A ser impresso e publicado em 22 de fevereiro de 2014.

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