terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Os fios de Ana



Há muito percebera que a solidão lhe fazia sentir-se estranha. Ria sozinha, pensava em coisas que, enquanto vivia em sua aldeia, jamais pensara. Um exemplo? Pensava em fios. Fios que escorriam de si em direção a tudo o que via. Fios que deixavam rastros. Pensava em fios coloridos, mas também em fios de gelo, que derretiam assim que tocavam a terra, sem deixar vestígios. Talvez apenas um tênue traço molhado que, em poucos momentos, desaparecia.

Enfim, a solidão a havia tornado outra. Justificava-se a miúde, dizendo para si que era devido à prolongada estada em país estrangeiro, sem dominar a língua. Quando pensava nisso, de imediato, fantasiava a própria língua a sair-lhe da boca incontrolavelmente. Divertia-se a princípio até o dia em que, sentada no metro, deixou que a língua se expressasse livremente e foi mal encarada pela senhora à sua frente. Levantou-se ligeira, desceu na primeira estação e resolveu voltar a pé para casa. Resultado: perdeu-se. Preciso imenso parar com esses pensares! Repreendia-se em voz alta para ver se, ao escutar o próprio ralho, despachava-se.

Era uma vida pacata, havia um ano mudara-se para o exterior. Saiu da aldeia como outros recém-formados, a tentar vida fora da pátria. Aqui não há trabalho, Ana! Logo que chegou, usou as economias para tentar o idioma, fazia aulas sem bom sucesso, enquanto buscava emprego. Em pouco tempo conseguiu remuneração junto a uma conterrânea. Passava o dia inteiro sozinha em casa bordando pedrarias e só uma vez por semana ia à patroa entregar o feito e apanhar mais o que fazer. Aos poucos, acomodada ao silêncio, pôs-se a desinteressar do curso  e, enfim, saía apenas às quintas-feiras. Apanhava o metro, viajava oito estações, andava duas quadras. Na volta, com a paga, ia ao mercado e comprava sempre aquela lista: seis ovos, dois potes de iogurte, uma lata de atum, chá de menta, torradas, quatro maçãs, duas cenouras e três batatas. Era o que comeria até a próxima semana, quando repetiria o mesmo itinerário.

Por isso, naquele dia em que o atrevimento da língua a fez perder-se, estranhou quando decidiu voltar a pé para casa arriscando andar por ruas desconhecidas. Saiu da estação e leu na placa o nome da rua. Nunca havia passado por ali. Viu o sol a se pôr e concluiu o Norte. A casa talvez fosse lá, mas onde? Desconhecia. Por um momento o coração parou de bater. Sentiu vertigem. Sem a língua, nada do que sabia adiantava-lhe agora. 

A visão turvou-se. Fechou e abriu os olhos, piscando excessivamente.  Sentiu cheiros. Comida de rua. Teve a impressão nítida de seus pés no solo. Podia sentir o chão, mesmo estando calçada. Levou a mão ao bolso e notou que o gesto lhe trazia sensações táteis e térmicas: áspero quente da lã, liso gelado da seda. Não saber acordava-a. Percebia-se estranhamente sensível. Diria que viva. Estranhamente viva, falou alto.

Voltou a pensar em fios. Um fio encarnado, cor de sangue que a ligava à sua casa no estrangeiro, que a ligava à sua aldeia. O fio vermelho surgido do túnel do metro, indicava-lhe o caminho. Norte. Tinha certeza. Deixou o fio guiá-la. A pele como bússola. Sentia o vento, ouvia o ruído da cidade. O corpo vibrava suave e intensamente. Semicerrou os olhos para ver melhor. Virou uma rua e outra e mais uma vez. Lá estava o 56.


Impresso e publicado em 8 de fevereiro de 2014.

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